O Hospital das Forças Armadas (HFA) abriu sindicância para apurar se cinco médicos da unidade denunciados no esquema da “máfia das próteses” do Distrito Federal, investigado pela Polícia Civil e pelo Ministério Público, também estariam realizando procedimentos desnecessários no local. Uma operação em conjunto entre os órgãos apontou que um grupo de profissionais lucrou com a colocação de órteses e próteses sem necessidade e superfaturados em estabelecimentos privados.

O procedimento interno começou em 14 de outubro, após o promotor de Defesa dos Usuários dos Serviços de Saúde do MP (Pró-Vida) Maurício Miranda enviar ao HFA cópias de escutas que mostram diálogos entre os médicos.

“Enviei os documentos de forma sigilosa. São conversas em que se referem ao plano de saúde usado por militares. Agora, se eles realmente agiam no HFA, só a sindicância vai dizer”, afirmou o promotor ao G1.

De acordo com o HFA, o Comando Logístico do hospital resolveu abrir sindicância assim que “tomou conhecimento da citada operação”. O prazo é de 30 dias, prorrogáveis por 20 dias. Os investigados não serão afastados.

Segundo o hospital, um dos médicos investigados é o neurocirurgião Rogério Gomes Damasceno. Ele trabalha no HFA desde 2002, com carga de 20 horas semanais. Em setembro, ganhou salário líquido de R$ 15.286 – fora uma verba indenizatória de R$ 747.

Também dono de uma clínica no Setor Hospitalar Sul, Damasceno tinha sido preso na primeira fase da operação Mr. Hyde, em setembro. Segundo os investigadores, ele é um dos médicos mais atuantes do esquema de propinas entre a fornecedora de próteses TM Medical e o hospital Home, na Asa Sul. O médico foi liberado no dia seguinte. Procurada, a defesa dele não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Por entender faltarem provas, a Justiça rejeitou denúncia contra o proprietário do Home, Nabil Nazir El Haje, e contra o diretor do centro médico Cícero Henrique Dantas Neto.

Outras fases
Na primeira fase da operação, iniciada no dia 1º de setembro, a polícia prendeu 13 pessoas e apreendeu mais de R$ 500 mil em cumprimento de mandados de prisão e de busca e apreensão no Home, em três clínicas e residências de médicos envolvidos com os supostos crimes.

Segundo a polícia, estima-se que cerca de cem pacientes tenham sido lesados pelo gurpo. De acordo com as investigações, o esquema envolvendo cirurgias desnecessárias, superfaturamento de equipamentos, troca fraudulenta de próteses e uso de material vencido em pacientes é “milionário”. Na Justiça, 17 acusados de integrar a máfia já são réus.

O alvo da segunda fase foi o hospital Daher. Segundo a polícia e o Ministério Público, o dono do hospital, José Carlos Daher, tem participação ativa no esquema. O MP chegou a pedir a prisão temporária dele, por suspeita de destruição de provas, mas a solicitação foi negada pela Justiça. No entanto, o empresário de 71 anos chegou a ser detido por posse ilegal de uma pistola “ponto 45”, de uso restrito do Exército e das polícias Federal e Militar.

Ao G1, o advogado do hospital Daher negou as acusações. “Não temos dúvida de que os procedimentos do hospital são todos corretos”, disse Paulo Maurício Siqueira. A assessoria de imprensa do Daher informou que colabora “ativamente com as solicitações realizadas”.

Na terceira fase, foi preso o médico Fabiano Duarte Dutra, suspeito de destruir documentos que poderiam incriminá-lo. Segundo as investigações, o médico Fabiano Duarte Dutra colocou fogo em documentos que poderiam servir de prova. Em depoimento, ele se manteve calado.

 

Como funcionava
De acordo com os investigadores, os hospitais lucravam ao cobrar de planos de saúde e recebia comissões por indicar um grupo de fornecedoras de próteses já determinados. Parte do lucro, que girava em torno de 15%, acabava sendo divido com os médicos.

O MP informou que ainda vai calcular quanto o esquema teria movimentado. Pelo cálculo dos investigadores, era cobrado preço entre 800% e 1.000% maior do que realmente a prótese custaria no mercado.

Escutas telefônicas obtidas pela Polícia Civil do Distrito Federal e reveladas pelo Fantástico mostram a conversa entre um médico e um fornecedor de órteses e próteses sobre como continuar “enrolando” um paciente e faturar mais.

Depoimentos obtidos com exclusividade pela TV Globo apontam detalhes do suposto esquema, explicados por funcionários da empresa TM Medical. Uma das empregadas, Rosângela Souza, afirmou que o grupo criminoso colocava lacres de próteses importadas em embalagens de versões inferiores, elevando o custo aparente do produto e lesando planos de saúde e clientes.

 

Próteses e órteses
Próteses são dispositivos usados para substituir total ou parcialmente um membro, órgão ou tecido. Órteses são utilizadas para auxiliar as funções de um membro, órgão ou tecido do corpo. De uso temporário ou permanente, as órteses evitam deformidades ou o avanço de uma deficiência médica. Um marca-passo, por exemplo, é considerado uma órtese implantada.

 

fonte: http://g1.globo.com/distrito-federal/